Quinta-feira, 14:25. Carta de despedida.
Não sabia se lhe devia um perdão, mesmo que escrito. Mas, de qualquer forma, não poderia sair e deixa-lo sem uma resposta, uma explicação. Pegou uma folha de papel e uma caneta que encontrou em seu quarto, e se pôs a escrever para ele.
“Sabíamos que nada seria fácil, era fato. Quando encontramos a casa para vender, o preço já não indicava aquela facilidade espetacular de formar uma vida entre dois e, logo ao acabar a batalha, esbanjar aqueles sorrisos idiotas de vitória para quem quiser que aparecesse. Sofremos, batalhamos. Fizemos o possível e o impossível para que tudo desse certo. Lembra-se? Erámos cegos demais, em diversos pontos. Não nos casamos na igreja para poupar a grana, para poupar o sonho. E erramos. Não compramos mobília nova para amenizar o gasto, e cremos que tudo duraria o tempo preciso para que construíssemos algo fixo em nossa organização. E cometemos mais um erro. Não pintamos a casa, não reformamos o banheiro. Não compramos alianças devidas, não comemoramos diversos anos de casados. E erramos, acima de tudo. Não soubemos aproveitar, não dividimos as alegrias da forma certa. Não fizemos a cópia da chave dos fundos, não tiramos aquele prego da parede da sala. Nem ao menos trocamos os móveis de lugar uma única vez se quer. Sempre errando, e tentando fugir das cobranças. E defino tudo, tudo mesmo, em uma pergunta: “onde eu estava com a cabeça?”. Então, onde eu estava? Porque não enxerguei o mesquinho sentimento de economizar, pois não vi os sentimentos desabarem. Porque não percebi a falta de sentimento em cada noite, e o desinteresse seu nas minhas típicas conversas. Eu havia entrado num poço, num buraco oco. Estava presa a esperança de um dia acertar, ao seu lado, por nós. Segurei firme, firme mesmo. E nem ao menos as viagens, os jantares, as tentativas aguentaram: desabaram, assim como eu, num mar de desordem. E sei que sair, ir para outro lugar, não irá amenizar a dor. Mas não sei se devo continuar aqui, dessa maneira. Pois hoje, enquanto escrevo, ainda não encontro nenhum motivo além do meu amor por você para continuar, e aceitar tudo. Mas aceitar, para mim, cansa. E eu cansei de aceitar te amar.”
E então, levantou-se, deixando a carta em cima da mesa, junto com toda a sua vontade de continuar. (Efeito “eu te amo”)